18 de abril: celebrar ou revisar?
- Beabah RS
- 18 de abr.
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O dia 18 de abril segue sendo lembrado como o Dia do Livro Infantil, em homenagem a Monteiro Lobato. Durante muito tempo, essa escolha foi tratada como algo natural, quase incontestável. Mas hoje, nós podemos (e precisamos) fazer uma pergunta incômoda: quem merece ser homenageado quando falamos de infância?
Em Caçadas de Pedrinho (1933), há um trecho amplamente debatido:“Tia Nastácia, esquecida dos seus numerosos reumatismos, trepou que nem uma macaca de carvão…” Negra beiçuda! gritou Emília.”
A forma como Tia Nastácia é retratada não é um detalhe isolado. Ela revela um padrão de representação que associa personagens negras à inferiorização, à animalização e à subalternidade. Diante disso, surge a provocação que queremos fazer. Faz sentido manter uma data dedicada à infância homenageando um autor que reproduziu visões racistas? E, no caso de Monteiro Lobato, não estamos falando apenas de um autor que reproduziu ideias de seu tempo, mas de alguém que também defendeu e difundiu concepções racializadas e hierarquizantes, presentes em sua obra e em seus escritos. Em O Presidente Negro (1926), encontramos afirmações como “onde a força vital da raça branca” e a ideia de que a presença negra seria um “erro” na formação social. Não se trata, portanto, de um caso isolado ou de linguagem datada, mas de um pensamento estruturado, que dialoga com projetos eugenistas e com a hierarquização de vidas.
Homenagear também é escolher o que valorizamos como sociedade. Não se trata apenas de memória, mas de poder: quem é celebrado ocupa o centro, enquanto outros seguem sendo historicamente apagados. As homenagens constroem referências, legitimam vozes e organizam o imaginário coletivo, especialmente quando falamos de infância.
Manter determinadas figuras nesse lugar não é neutro. É reafirmar hierarquias, ainda que de forma sutil, e perpetuar quais corpos, histórias e perspectivas continuam sendo autorizados a representar o universal. Por isso, revisar homenagens não é um gesto de cancelamento, mas um movimento de disputa por narrativa, por reconhecimento e por justiça histórica.
E escolhas podem e devem ser revistas. Isso não significa apagar Monteiro Lobato da história. Significa tirá-lo do lugar de celebração automática e colocá-lo no lugar da análise crítica. Talvez o ponto não seja apenas retirar ou manter a homenagem.
Neste 18 de abril, a Beabah propõe um deslocamento: em vez de aceitar a data como está, nós podemos transformá-la em um espaço de debate, revisão e escolha consciente. Porque formar leitores também é ensinar que tradições não são intocáveis,elas são construções sociais, e nós participamos daquilo que permanece.


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